Traiu o movimento pirata véio!

Recentemente o ativista digital e co-fundador do Pirate Bay Peter Sunde declarou em um artigo do site Torrent Freak que o ‘movimento pirata’ está morto. Sim, isso mesmo que você leu: morto, mortinho, defunto, acabou, já era c’est fini, tchau! O último que sair apaga as luzes!

Será mesmo?! O que levou esse famoso ativista a dizer isso e como isso aconteceu?

Bom, antes de qualquer crítica é importante prestar a devida reverência à Peter Sunde. Afinal, ele se dedicou muito a esse movimento desde o começo, quando se tornou membro do PiratByrån (uma organização ativista digital) e porta-voz do PirateBay em 2003 e chegou a passar 5 meses na prisão entre 2013 e 2014.

A tese do artigo de Peter Sunde é bem clara: o que importa pra ele são as causas. Qual é o ponto de gastar energia e recursos para efetuar um meta-debate sobre a forma ou configuração dessas causas? Liberdade de informação, liberdade de opinião, vigilância e corrupção estatal, excesso de poder das corporações, o direito de acesso à educação é à cultura são causas importantes? São. Estamos avançando nelas? Não.

Nesse ponto é preciso concordar com Peter Sunde. Como aqueles envolvidos com política sabem, a estruturação e organização de um partido é um processo extremamente burocrático, em que muita energia e tempo são gastos apenas para criar um consenso mínimo entre os envolvidos. E isso é algo especialmente válido em um país tão burocrático quanto o Brasil.

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Diferente do que ocorreu na Suécia onde havia um movimento político se opondo contra arbitrariedades e prisões do Estado por crimes de pirataria que consequentemente serviu como base social das operações do Partido Pirata, no Brasil a idéia do Partido Pirata chegou antes de termos um movimento político suficientemente coeso envolvido com essas causas.

Além disso, muitas pessoas evitam a idéia de se associar a um partido político, o que é bastante compreensível dada a nossa atual conjuntura política, mas é algo que na prática impede o avanço de novas idéias políticas que possam servir de contra-posto ao que é praticado hoje.

Nada disso, no entanto, é realmente um problema hoje, pois o partido pirata ainda não existe oficialmente. Ele ainda está em meio ao processo de coleta das 500 mil assinaturas necessárias para sua fundação. Algo que, diferente do que ocorre em outros partidos com abundantes recursos financeiros (sim, somos todos duros) ou com algum tipo de sindicato ou associação por trás, não irá ocorrer a não ser que uma massa suficientemente crítica de pessoas compre a idéia e apoie a sua fundação.

Ou seja, hoje em dia o Partido Pirata é apenas uma idéia. E ele não virará realidade a não ser que ele consiga agregar o movimento social necessário para fundamentar sua criação. Algo que, se ocorrer, deverá levar vários anos de trabalho e esforço de seus membros.

Então a isso damos razão à Peter Sunde. A criação de um Partido é irrelevante se ele não servir como canal de um movimento social muito mais amplo, pois o objetivo final de qualquer Partido é o de cristalizar e botar na prática as idéias e conceitos de um grupo ou movimento mais amplo  que ele representa.

E agora que já puxamos bastante o saco do Peter Sunde, podemos criticar o restante do seu artigo. Sim, pois se o seu ponto principal tem mérito, suas outras críticas são mais fracas.

Peter Sunde critica que o movimento pirata não tem um ponto de vista ideológico global. Ele não tem uma opinião unica sobre imigração, por exemplo. Mas exigir essa coerência ideológica do movimento pirata parece ser exigir demais de um movimento de caráter global tão jovem (pouco mais de 10 anos).

Além disso, como o movimento pirata tem um caráter descentralizado, cada Partido Pirata do mundo acaba tendo uma opinião levemente difetente sobre o assunto, o que leva a alguns determinados extremos, como Partido Pirata das Philipinas, que tem como base conceitos religiosos e católicos.

Mas essa estrutura descentralizada, por sua vez, está ligado aos tempos em que vivemos, como a rede mundial de internet e que, consequentemente, determina o espírito (geist) político do partido, assim como sua base ideológica, que tem como cerne a tecnologia.

Como defende o fundador do Partido Pirata, Richard Falkvinge, a doutrina principal do Partido Pirata é o empoderamento individual e exigir que indivíduos de diferentes lugares do mundo tenham necessariamente a mesma opinião não parece ser algo lá muito pirata.

Não, como preconiza o diagrama de Baran, cada ponto de uma rede deve ter a autonomia de determinar seus próprios posicionamentos, ainda que compartilhando de algumas crenças básicas, como a liberdade individual e a colaboratividade.

Importante destacar que embora Peter Sunde tenha feito parte do PirateByran, ele nunca teve grande atuação junto ao Partido Pirata. Seus apoios sempre estiveram muito mais alinhados ao Partido Verde Europeu do que aos piratas.

.Além disso, talvez seja comodo para Peter Sunde declarar a morte do movimento pirata. Para um libertário como ele, que anteriormente já havia declarado que preferia que o PirateBay continuasse fora do ar, deve ser um ato verdadeiramente libertador negar hoje o movimento ao qual sempre viu sua imagem vinculada.

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Kommentare

One comment for Traiu o movimento pirata véio!

  1. ricardooliveira commented at

    Uma ideia não vai para o papel senão como arte.
    Uma representação, uma identidade ser forma juridicamente.
    As leis quem faz é o homem.
    Enfim, um consenso pirata?

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