Dia Nacional da Visibilidade Lésbica e o porquê da postura combativa e não comemorativa dessa data

No final da década de 60 descobre-se que as massas LGBT não eram todas iguais e tinham outras identidades com suas particularidades e diferentes necessidades, nos anos 80 começam a surgir grupos de lésbicas se organizando de forma autônoma e se separando dos movimentos LGBT e feminista. Em 29 de agosto de 1996 no Rio de Janeiro foi realizado o Primeiro Seminário Nacional de Lésbicas (Senale) e um dos frutos desse seminário foi o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.

Apesar de tantos anos de luta muitos dos problemas permanecem, dentro da comunidade LGBT ainda é visível a priorização das pautas gays sobre as pautas lésbicas e se isso ocorre dentro do meio LGBT na sociedade em geral somos praticamente invisíveis. Se para uma mulher heterossexual é tão difícil viver nessa sociedade sexista e desigual para uma mulher lésbica é pior e para uma mulher lésbica e negra é viver um terrorismo diário. Pesquisando para escrever sobre esse dia me deparei com a assustadora falta de estatísticas sobre casos de depressão, suicídios e violência sofrida por mulheres lésbicas, não consegui encontrar praticamente nem um tipo de estatísticas relacionadas especificamente a lésbicas.

Resende-RJ-realiza-ações-pelo-Dia-Nacional-da-Visibilidade-Lésbica

Esse apagamento é tão forte que sequer somos cobertas pelas políticas públicas de prevenção e redução de riscos de DSTs, não é fácil encontrar material explicativo sobre sexo seguro entre lésbicas, não há distribuição de cartilhas informativas, preservativos para sexo oral ou dedeiras em postos de saúde e são raras as farmácias onde podemos encontra-los a venda. Esse problema se estende desde a prevenção a DSTs até o atendimento médico ginecológico dado a mulheres lésbicas. Em 2006 a Rede Feminista de Saúde fez um levantamento e descobriu que 40% das mulheres não revelam ao ginecologista que são lésbicas, entre as que revelam, 28% tem atendimento pouco atencioso e 17% acreditam que faltam pedidos de exames. Essas estatísticas demonstram que há ginecologistas que não estão preparados para atender lésbicas, que discriminam e provocam constrangimento em pacientes lésbicas o que faz com que muitas de nós sejamos tratadas como se fossemos de orientação heterossexual por esses profissionais.

Se são poucas as estatísticas levantadas sobre lésbicas, sobre lésbicas negras as estatísticas são inexistentes. Creio que nem é necessário estatísticas para sabermos que esse problema se agrava quando falamos de mulheres lésbicas negras, que em sua maioria tem menos (quando tem) acesso a saúde.

No mercado de trabalho é mais uma guerra, muitos dos recrutadores mostram preconceito ao ver nossa postura menos feminina e mesmo as lésbicas já inseridas e com carreiras de sucesso ainda são obrigadas a lidar com a lesbofobia naturalizada. Não sei dizer a quantidade de vezes que eu ouvi comentários de colegas e superiores sobre eu não usar sapatos com saltos altos ou maquiagem, ou sobre meu jeito mais “masculino” de andar e falar. O jeito lésbica de ser é a minha natureza e existe uma pressão imensa, especialmente no ambiente profissional porem não apenas nele, para esconder esse jeito lésbica de ser e se enquadrar no padrão das outras mulheres, de protagonizar o papel de mulher feminina. Isso quando não há a valorização estética da mulher lésbica que é usada como objeto para atrair mais homens, isso não é visibilidade, isso é objetificação e fetichismo.

O que nós mulheres lésbicas buscamos não é sermos inseridas, já estamos aqui, já existimos, o que buscamos é termos espaço, termos voz, dentro dessa sociedade que nós invisibiliza, que desvalida nossa vivencia, nosso jeito de ser, que nos cobra que deixemos nossas particularidades e necessidades de lado. Por isso essa não é uma data comemorativa, é uma data para refletirmos sobre tudo que ainda nos é negado. A verdade é que ainda temos muito pouco para comemorar.

 

Por Michele Bittencourt.


Leave a Reply

More informationens

PIRATAS-SP no Facebook